terça-feira, 2 de abril de 2013

Pacífico

então foi que eu
entendi o que era mar aberto
é assim, como teu peito,
revolto, sem amarras,
sem defesa, sem filtro
ele é
apenas sendo
e te avisam para não nadar nele
e te avisam que suas correntezas te arrastarão
e te avisam sobre a sua profundidade sombria e silenciosa
e te avisam que o risco é seu
mas não há
nem como pensar em resistir
e banhar-se em suas águas
é apenas o sentido da vida toda
é tudo que você esperou
ouvi suas ondas no quebra-mar
entrei em ti
e soube do meu lugar no mundo

tenho aqui todas as cores de que preciso,
e esse sol que aquece a América
uma língua que se enrola e não é a
minha pátria, pária:
ainda sim penso em todos os dias chuvosos que perdi ao teu lado

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mar Cáspio

todas as coisas que você me disse eram verdades -  partiremos desse ponto e buscaremos juntos tudo o que me tornei,
eu velejei pela primeira vez em suas ondas anos atrás, quando a beleza dos dias era o que contava e
quando todas as confusões de nossas vidas pequenas eram nuvens, suaves e sem contorno. bruma, eu rodava pelos lados, esperando, esperando e esperando. era a vida que era assim, e não eu. porque eu não era naquela época, eu fui sendo depois, construindo meu castelo de pedras dia após dias depois que a tormenta passou. mas não era uma história linear, eu vivia de contos, de apego, de passados que nunca existiram, eu vivia com as sirenas e clamava pela luz do dia no mediterrâneo. eu saí sozinha, viajando pelo mundo apoético e apocalíptico, vazio, bonito, eu queria ver as estatuas, eu queria serviar àqueles deuses todos, aquelas cores todas.
{você}E eu nunca soube o que era marola e o que era tsunami. eu estava sempre no meio-fio, meio-termo, mar virado, ventania insana sobre a minha cabeça que descia em espiral por coisa qualquer. vou pelo mais mediocre dos suspiros,  pela respiração ofegante dos que estão prestes a desestar.
deserto de mim mesma para poder me jogar em você, com adoração e desespero.



eu não queria acordar, eu nunca quis, você não percebe?



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

you're the storm (that I believe in)

então eu vi a tua tatuagem e era como se meu corpo inteiro estivesse quebrado. eu nunca pertenci a mim, eu sempre fui desfrutável a ponto de me perder a cada esquina, a cada névoa, em cada pedaço teu que eu vi desnudo. tu me teve no momento em que disse todas as palavras certas no tempo errado. tu me teve quando eu bati as pestanas e queimei meus olhos venerando o sol. eu queria que tu fosse possível, então eu rezei. eu, sem fé em nada que não me transponha ao mais verde dos mares. sou a sina dos navegantes, o farol que deixou de acender para que os homens se perdessem. as sereias, onde será que elas estão? tua pele que me arranha e eu anseio por isso, tu me corta com a barba e faz isso porque eu adoro com a mesma paixão da primeira vez. tu és meu ritual de passagem e eu posso na loucura dos meus dias completos e amenos desligar-me de tudo o que vivemos, não porque posso, mas porque amo. esse amor que nos redime e nos une e nos separa e nos faz loucos. eu estava indo embora, tu sabes. mas eu fiquei. tua complacência nos dias de fúria, o som dos trovões e tudo isso. obrigada, tempestade.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

barragem

eu sou a barragem. que figura de linguagem fui arrumar, hein? ás vezes conter você é devastador. principalmente quando me vejo circulando em uma composição de tons vermelho-sangue, onde a música pulsa e para no mesmo ritimo. sempre que você desce eu quero chorar. conter você é devastador às vezes. me sinto um turbilhão de pensamentos torpes, sou a barragem que exercita toda a sua capacidade de produção para não estourar e banhar os parques virgens dessa vida, tornando nosso sofrimento ainda mais insuportável. sou a barragem que cumpre seu papel de conter, segurar, mover, gerar, amar. milhares de litros de água. lágrimas constantes que vazam pelas beradas, despercebidas e ausentes. eu tenho essa tristeza de quando em quando.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

balada das seis & meia

seus dedos que me tocam
me fazem dançar essa sinfônia
cafona
que me derrete por dentro
você diz que tudo vai ficar bem
susurra tudo no meu ouvido
liquidificador
me esparrama pelo quarto inteiro
em postas
partes expostas
nua, completa
nua de mim
me rasga, que eu gosto
assim
sangue
eu quero, de perto
eu explodo
você tem o dom
de me transformar em água
liquida, perdida
louca
esse papel é meu
de morrer um pouco a cada vez que você saí de dentro de mim
quente e espesso
de me tremer as pernas
tua violência, tão minha
sou sua pequena guerra particular
vulcânica, passível
morrer de amor é uma dádiva





sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

lembrando do ardor de uma vida que não vivi
de copos de bar americanos, refletindo uma luz amarela, fraca
espumosa
eu era a juventude
e hoje, por mais que tente
não consigo mensurar a imensidão de teus olhos verde-água
os olhos mais azuis do texas
tu vestia aquela camisa velha do grêmio
acendia meu cigarro com o teu
e a gente era assim, tão largado
era uma festa sem protagonista
era fluído porque era nada
nunca foi
e então tu foi-se pra ser
pra não voltar mais
e eu esperei
porque é o que fazemos quando somos jovens:
nós esperamos.

não tenho saudade.